terça-feira, 27 de novembro de 2012

Mostra O Negro no Cinema Brasileiro percorre 50 anos de história

No Dia da Consciência Negra, o Museu Nacional dos Correios, em Brasília, abre uma mostra que promete revelar como a população afrodescendente tem sido retratada pelo cinema nacional ao longo dos últimos 50 anos. O Negro no Cinema Brasileiro acontece de 20 de novembro a 2 de dezembro, sob a curadoria do cineasta, professor e crítico de cinema Sérgio Moriconi.

Ao longo de duas semanas, serão promovidas 24 sessões, em horários alternativos. De terça a sexta-feira, as exibições acontecem às 12h30 e às 19h, visando oferecer uma oportunidade de unir descanso e informação para quem trabalha nas proximidades do Setor Comercial Sul (onde está o Museu Nacional dos Correios). Aos sábados e domingos, sessões às 15h e às 17h. A entrada é franca.

O Negro no Cinema Brasileiro pretende estimular uma reflexão sobre a história e a importância da presença dos afrodescendentes na constituição cultural, econômica e socioeconômica do país, além de permitir um debate sobre a situação atual.

A mostra vai exibir títulos que percorrem a história do cinema no Brasil. A começar por Amei um bicheiro, de 1952, policial inspirado nos filmes noir, sobre o jogo do bicho e que contém a cena em que o lendário ator Grande Otelo considerava a melhor de toda sua carreira: a morte de seu personagem, Passarinho. O passeio continua com o clássico Orfeu Negro, 1959, de Marcel Camus, que venceu em Cannes e recebeu o Globo de Ouro ao transpor para o carnaval carioca da década de 50 o mito de Orfeu e Eurídice.

Um dos mais importantes filmes do cinema brasileiro, Assalto ao Trem Pagador, de 1962, dirigido por Roberto Farias, tinha como protagonistas os atores Eliezer Gomes, Grande Otelo, Ruth de Souza e Luíza Maranhão. Na tela, a encenação de um fato real: o assalto ao trem da Central do Brasil, em 1960. Um título emblemático, A Rainha Diaba, 1974, de Antonio Carlos Fontoura, afirmou o imenso talento do ator Milton Gonçalves. Na pele de um homossexual que dominava o tráfico de drogas na Lapa, no Rio de Janeiro, Milton arrebatou o Brasil. O filme foi premiado no Festival de Brasília.

Em 1998, o cineasta Renato Barbieri e o pesquisador Victor Leonardi percorreram o caminho trilhado pelos africanos feitos escravos no Brasil e conceberam o premiado Atlântico Negro – na rota dos Orixás, que mostra as afinidades existentes entre comunidades separadas pelo Oceano Atlântico.

Mas foi nos anos 2000 que se assistiu a um boom da presença do negro no cinema brasileiro. Títulos como Uma onda no ar, de Helvécio Ratton, e Madame Satã, de Karim Aïnouz, de 2002, apresentavam diferentes aspectos da realidade social da população afrodescendente no País. Com seu filme sobre a criação de uma Rádio Comunitária numa favela de Belo Horizonte e da repressão policial que seus criadores vieram a sofrer, Ratton mostrou pessoas que tentam romper a rotina de tráfico e violência. Karim Aïnouz em seu longa de estreia, Madame Satã, magnificamente protagonizado por Lázaro Ramos, retrata a vida do malandro homossexual que comandava a vida boêmia na Lapa. O filme recebeu prêmios no Brasil, em Havana, Cartagena e Buenos Aires, dentre outros.

Quase dois irmãos, 2004, de Lúcia Murat, revela o encontro de ex-companheiros de infância que seguiram rumos distintos – um se tornou senador da República e outro chefe do tráfico de drogas numa comunidade carioca. No elenco, Flávio Buraqui e Antonio Pompêo, dentre outros. Do mesmo ano de 2004, Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo, traz um elenco estelar: Ruth de Souza, Léa Garcia, Milton Gonçalves, Taís Araújo, Thalma de Freitas, Rocco Pitanga. Em cena, a história de duas irmãs que após muitos anos se encontram numa pequena cidade mineira onde ainda vivem os fantasmas da escravidão e do racismo.

Longe da ficção e apresentando um artista que está entre os mais importantes da música brasileira, o documentário Paulinho da viola – meu tempo é hoje, 2004, revela a vida simples do artista que é o mais sofisticado do samba. Também na linguagem do documentário e concentrado numa personagem negra, Estamira, 2005, de Marcos Prado, arrebata as plateias por onde passa. Estamira Gomes de Sousa foi uma catadora de lixo do aterro Jardim Gramacho, do Rio de Janeiro que sofria de doença mental. Seu discurso filosófico misturava momentos de extrema lucidez e rasgos de loucura. Foi premiado no Rio de Janeiro, em São Paulo, Marseille, Viena, Havana e transformou-se em espetáculo teatral.

Pouco visto no circuito comercial, Besouro, 2005, de João Daniel Tikhomiroff, recupera para os dias atuais a figura lendária de Besouro Mangangá, que viveu no Recôncavo Baiano, no início do século XX, e é considerado o maior capoeirista de todos os tempos. A Bahia também é palco da comédia musical Ó Paí, Ó, de 2007, direção de Monique Gardenberg, que leva para as telas o clima e o frescor do carnaval baiano, num casarão em pleno Pelourinho de Salvador. E fechando o passeio pelo cinema nacional, o filme mais recente da mostra, A falta que me faz, documentário de 2009, assinado por Marília Rocha, vai à Cordilheira do Espinhaço, em Minas Gerais, para mostrar o cotidiano de quatro meninas. O filme nasceu de uma pesquisa sobre as coletoras de flores de Diamantina.

No sábado, dia 24 de novembro, haverá palestra do professor Rafael Sanzio dos Anjos, graduado em geografia, mestre em planejamento urbano, doutor em informações espaciais e com pós-doutorado em Cartografia Étnica no Museu Real da África Central em Tervuren - Bélgica. Rafael Sanzio dos Anjos é Professor do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília e Diretor do Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográfica (CIGA), onde coordena os Projetos Geografia Afro-Brasileira: Educação e Planejamento do Território e Instrumentação Geográfica, Educação Espacial e Dinâmica Territorial e Coordenador também do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UnB e do Centro de Documentação Geográfica Milton Santos (CDGMS).

Suas publicações mais recentes são as seguintes: “Dinâmica Territorial: Cartografia-Modelagem-Monitoramento, 2007″, “Cartografia & Educação - Vol I, 2008″, “Quilombos: Geografia Africana – Cartografia Ética – Territórios Tradicionais, 2009″ e “Territorialidade Quilombola: Fotos & Mapas / Quilombola Territoriality: Photos& Maps, 2011.

Clique aqui para saber mais e conferir a programação completa.

Se eu não chegar a ver, vai nascer de mim quem vem para ver

Por Cidinha da Silva



Eu gostaria de assistir Subúrbia por simples deleite, como assisto Lado a Lado, mas fiquei tão impressionada com as reações negativas, lidas e ouvidas, que me impus a tarefa de analisar a mini-série e destacar o sem-número de boas impressões causadas pela obra em mim. Mas é chato, confesso. Eu quero apenas ser telespectadora, gostar, como gosto, e degustar o que mais me interessa, o texto.Recuso qualquer roteiro didático para acompanhar Subúrbia. O fato de autores, atores e atrizes terem pensado isso ou aquilo no momento da concepção, não garante o resultado performático desejado, ou seja, existe uma grande distância entre pensar a obra e conseguir realizá-la. E todas as pessoas têm o direito de achar o que quiserem! Abaixo a leitura de telepronto que alguns querem impor ao telespectador. Tampouco, desejo criar um roteiro (didático) próprio para amealhar seguidores.

Sou do time de Carlinhos Brown, a poesia é necessidade básica. Quero falar sobre um trabalho de arte que me emociona e traz elementos importantes (e novos) para a teledramaturgia do negro, na verdade, sobre o negro no Brasil, ainda. Tudo isso pelo meu olhar, nada mais!

Não me forçarei a ver o que quer que seja, nem levarei meus discursos prontos sobre as mulheres negras, por mais que os julgue criativos, supostamente consonantes com a tradição (embora, muitas vezes, não passem de aspectos superficiais), para a leitura da telenovela. Cada pessoa venda seu peixe com a técnica que tiver nas mãos, com a linguagem de sedução e convencimento de idéias que tiver conseguido criar ao longo da vida.

São muitos interesses em disputa para “garantir” outras edições da mini-série. Tenho consciência de que Lado a lado conta com atrizes e atores consagrados, com lugar ao sol global garantido, na medida limitada em que artistas negros conseguem ter garantias na profissão, fora das produções chamadas de época e dos papéis de/para negros. Em Subúrbia, Haroldo Costa, ícone da cultura brasileira, é conhecido na TV, entretanto, como grande especialista em samba.

Rosa Marya Colin é uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos, porém, muita gente a está descobrindo agora, como Mãe Bia. Triste país, o nosso. Mas, os tais interesses não me roubarão o prazer de assistir Subúrbia e de me deter nos detalhes que me cativarem e me ajudarem no entendimento da construção de um texto primoroso. Clique aqui para ler na íntegra. 

Lenny Kravitz vai interpretar Marvin Gaye em cinebiografia

Resta saber se o diretor inglês vai conseguir se adaptar a um estilo musical que passa longe de ter raízes na europa. Segundo os produtores, o roteiro deve tratar dos últimos de Gaye, que aconteceram em Londres e por isso a escolha de Temple para a função, já que o cineasta é um profundo conhecedor da cena musical da cidade.

 Parece que agora é oficial, o cantor Lenny Kravitz (Preciosa - Uma História de Esperança) vai ser arriscar novamente nas telonas e dessa vez o seu papel será grandioso, ele viverá o gênio da música soul Marvin Gaye.

O longa deve ser dirigido por Julien Temple, famoso por ser um entusiasta de outro gênero musical nos cinemas: o punk rock. Ele já assinou o longa O Lixo e a Fúria, sobre os ingleses do Sex Pistols, e o documentário The Future Is Unwritten, que aborda a vida de Joe Strummer, vocalista do The Clash.


Não é de hoje que a história do cantor tenta ser levada aos cinemas. Desde 2006 um projeto assinado por F. Gary Gray (Código de Conduta) está em desenvolvimento, mas já foi engavetado diversas vezes e não deve ser filmando tão cedo. Resta saber se a produção a ser estrelada por Lenny Kravitz seguirá o mesmo caminho ou será filmada com sucesso.



sexta-feira, 25 de novembro de 2011

8ª Mostra Internacional de Cinema Negro 2011


Em 2011, a 8ª mostra internacional irá homenagear o ator, compositor e cantor brasileiro Sebastião Bernardes de Souza Prata (Grande Otelo), um dos ícones artísticos que o mundo conheceu.  O talentoso cantor Sérgio Ricardo que desenvolveu uma carreira brilhante receberá a estatueta do evento, um reconhecimento para quem contribuiu na divulgação da imagem do negro e de sua cultura.

Para o professor Celso Prudente (foto), o marco inicial do Cinema Negro no Brasil foi o filme Barravento, de Glauber Rocha, dentro do movimento cinemanovista, que mudou a participação dos negros nos filmes nacionais: de coadjuvantes a protagonistas. 


Programação:

Os 7 filmes selecionados serão exibidos em praça pública, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, como parte do tradicional show  de 20 de Novembro, promovido pela Comissão de Gênero e Etnia da Secretaria de Estado de Cultura de São Paulo.

Jesus Saves / Jesus Salva
Duração: 8 minutos
Diretor: Fabiano de Souza Ramos
País: Reino Unido, Brasil, Suíça, China, Índia e Arábia Saudita.
Sinopse: Um encontro inesperado que muda a perspectiva do mundo e coloca a comunidade mundial em colapso. O que aconteceria se isto fosse um evento verdadeiro? O que você faria? (Este filme concorreu no Festival de Cannes 2011 e no Festival de Kilburn em Londres 2011).

Drive In- Dreams – Estacionamento dos Sonhos
Duração: 12 minutos
Diretor: Anna Bowmam
País: Reino Unido
Sinopse: Documentário sobre um estacionamento construído em uma zona de residencial no norte de Londres, que é utilizado também por escritórios comerciais e residências. Mostra o drama dos moradores e trabalhadores de diferentes nacionalidades ao descobrirem que o prédio será demolido.

Continuous – Ana Maria Mioino
Duração: 9 minutos
Diretor: Anna Bowmam
Pais: Reino Unido
Sinopse: Documentário sobre a renomada  artista plástica brasileira Ana Maria Miolino e sua exibição de artes em Londres no Camden Arts Center.  Ana Maria Miolino nesta exibição mostra que o trabalho pode ter uma identificação com o olhar do outro entre um espaço e continuidade.

Banna Splat – A Ganancia
Duração: 9 minutos
Diretor: Claire Creswell
País: Reino Unido
Sinopse: Barry um executivo de produção decide vender um novo produto, conhecido como Banana Splat, porém para obter mais lucros ele inseri nos ingredientes produtos extremamente gordurosos e abusa da mão de obra barata das plantações de banana do Caribe. Com isto, ele leva a uma cadeia de efeitos nocivos a sociedade mundial.

Zelão
Duração: 4 minutos
Diretor: Sergio Ricardo
País: Brasil
Sinopse: A música Zelão, que rompe com o formalismo da bossa nova e parte para tratar de questões sociais, é o fio condutor deste filme de animação. Contando a vida na favela, Sérgio Ricardo, famoso por ligar música e cinema, mostra seu talento de animador.

Uma Estrela no Quintal
Duração: 7 minutos
Diretor: Danielle Divardin
País: Brasil
Sinopse: Uma menina em seu quarto descobre o universo da imaginação e vive a alegria de ser criança. (Animação infantil).

Mojubá - Origens
Duração: 20 minutos
Diretor: Antônio Pompêo
País: Brasil
Sinopse: Mojubá é uma saudação em Iorubá e o nome da série de documentários que mostra a influência da religiosidade de matriz africana na literatura, na música, na culinária, no dia-a-dia dos brasileiros. Por meio dos programas, mergulhamos na história e na sabedoria de nossos ancestrais africanos.


Saiba mais em: ABC Dinda

sábado, 24 de setembro de 2011

A margem da imagem - entrevista com Renato Candido, diretor de Jennifer

Primeiro filme do cineasta Renato Cândido de Lima, o curta-metragem Jennifer discute a maneira de como os negros e mestiços se enxergam pelo prisma de uma sociedade branca e preconceituosa e o que é possível para eles na rígida mobilidade social brasileira.                                                     
Por Amilton Pinheiro.        

O diretor e estudante de pós-graduação em Cinema pela Escola de Comunicação e Arte (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), Renato Cândido de Lima nasceu e viveu durante anos no bairro Nova Cachoeirinha, na periferia São Paulo. Filho de um operário eletricista aposentado e mãe pintora, ele viu de perto as transformações pelas quais o bairro passou. "O lugar mudou muito e hoje é uma periferia consolidada", diz. E foi na Cachoeirinha que se transmutava que o diretor teve os primeiros insights da história que viria a ser o curtametragem Jennifer (com duração de quase 30 minutos, o dobro de tempo de um curta normal).

O argumento para Jennifer nasceu de duas situações e dois tempos distintos: uma das vizinhas de Renato, cuja mãe era cabeleireira, vivia às turras com o seu cabelo crespo. "Era interessante como o lance do cabelo dela dizia muito de um conceito de beleza ligada aos brancos, como norma mesmo." A outra inspiração surgiu anos depois durante a graduação em Cinema na ECA/USP do jovem diretor. Renato foi fazer um curso de interpretação teatral e conheceu a jovem aspirante a atriz Juliana Valente - mestiça que tinha dificuldade de relacionamento com alguns alunos, de maioria branca. "Eu ficava observando Juliana e vendo como os outros a enxergavam. E foi por meio dessas duas situações que escrevi o roteiro de Jennifer, pensando na Juliana para fazer o papel dessa garota insegura com a sua aparência e com o mundo que vai descortinando a sua volta, como a necessidade do primeiro emprego", lembra Renato.

Roteiro embasado
Com uma boa formação acadêmica, o primeiro filme de Renato Cândido é bastante fundamentado em suas leituras no curso de graduação de cinema. Uma delas foi do sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995), que foi professor da Universidade de São Paulo e um dos intelectuais brasileiros mais respeitados. "Florestan Fernandes coloca que a condição para ser humano é uma condição branca. Isso é colocado na introdução do livro Negro no Mundo dos Brancos. É interessante como a gente - negro e mestiço - negocia ser branco e ser negro. A gente quer ser branco para ser possível em alguns lugares ou a gente negocia ser negro numa chave do exótico para ser possível também", argumenta Renato. Outra fonte para o roteiro de Jennifer veio do psiquiatra e escritor da Martinica, Frantz Fanon (1925-1961), um dos importantes estudiosos da sociedade diáspora e pós-coloniais, que escreveu dois livros seminais: Os Condenados da Terra e Pele Negra, Máscaras Brancas, originalmente a sua tese de doutorado, verdadeiros manifestos anticolonialistas. Frantz Fanon participou da Frente de Libertação Nacional pela independência da Argélia e foi um dos principais críticos da colonização e descolonização mental a que estavam sujeitos as populações de países subdesenvolvidos.

Uma discussão da mestiçagem
O curta-metragem gira em torno da história de uma garota de 17 anos - interpretada pela atriz Juliana Valente, em seu primeiro trabalho. Jennifer mora no bairro Nova Cachoeirinha, tem mãe cabeleireira e vive conflitos com a sua aparência (principalmente em relação ao seu cabelo crespo) e com as inseguranças típicas da adolescência. Sua melhor amiga é Tamires (Gabriela Balmant), jovem bem mais resolvida e segura. O curta-metragem, mesmo com seus quase 30 minutos de duração, não consegue desenvolver bem todas as subtramas da história, como a primeira paquera de Jennifer, a busca do primeiro emprego e, principalmente, a descoberta da história dos seus descendentes, o que a faz se aceitar melhor. Mas, por ser o primeiro trabalho de Renato Cândido, os méritos do filme são muitos: roteiro bem estruturado, câmera que enquadra bem as cenas e, o mais importante, uma eficiente direção de atores (um dos pontos mais problemáticos dos filmes de curta-metragem).

Renato soube escolher muito bem seus atores. Além de Juliana Valente e Gabriela Balmant, destaque para os atores Sidney Santiago (Os Doze Trabalhos) e André Luís Patrício (Amor em Quatro Atos, da Globo), que fazem pequenas participações. André faz o gerente do supermercado onde Jennifer vai procurar seu primeiro emprego. "Fiz tantos bandidos na minha carreira e fazer agora um personagem fora da cena marginal, apesar de uma participação pequena, foi desafiante. Minha preocupação era que tom iria deixar para o personagem, que não era um ´mano`. Ele tem muitas nuances e eu queria imprimir isso na minha composição, não sei se consegui", relata o ator.
Para o diretor Renato Cândido a satisfação com este primeiro trabalho é enorme, principalmente com a recepção que Jennifer tem nos lugares em que é exibido. "Apesar da insegurança que um primeiro filme traz para qualquer diretor, me senti muito à vontade durante as filmagens. Espero que isso tenha ficado impresso no filme."
Cenas do curta-metragem

Pai negro, mãe branca
Juliana Valente, protagonista do curtametragem, não é uma negra de pele retinta - tem pai negro e mãe branca, e muita similaridade com a história da Jennifer. Moradora do Jaguaré, na capital paulista, e estudante de Artes Cênicas na Universidade de São Paulo, a atriz confessa que se sentiu muito à vontade durante as filmagens. "A história tem muita similaridade com a minha história e a de muitas adolescentes que moram na periferia de São Paulo. Eu já tive dificuldade de aceitar meu cabelo crespo e tentei alisá-lo, ter um nariz mais fino e todos esses conflitos que nós, garotas mestiças, estamos sujeitas." Mas, por que não uma garota negra (de fato) para o papel de Jennifer? O questionamento foi feito ao diretor por alguns amigos. Renato se defende com o seguinte argumento: "Acho pernicioso trazer uma menina de pele mais preta trabalhando com a questão de identidade. A mestiçagem não é arrefecimento das tensões raciais, pelo contrário. E é isso que eu quis colocar em Jennifer. Ela, a personagem, é filha dessa mestiçagem. Geralmente o mestiço tenta negociar a sua aceitação numa sociedade branca."

Links relacionados:

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Mumblecore - a estética do faça você mesmo

Um grande panorama do novo cinema independente americano pode ser conferido na mostra “Mumblecore, a Estética do Faça Você Mesmo”. Mumblecore é um movimento de cinema independente que surgiu em 2002 durante uma conversa entre amigos, no intervalo das exibições de um festival de cinema independente. Joe Swanberg, Aaron Katz, Andrew Bujalski, Mark e Jay Duplass foram os primeiros cineastas a ganharem visibilidade, dentro e fora dos Estados Unidos, com seus primeiros filmes com o selo Mumblecore.



O movimento é caracterizado por seu baixo orçamento, roteiros e cenas improvisadas, atores não profissionais e temas geralmente em torno de relacionamentos amorosos entre jovens.

Baseados em movimentos anteriores, como o D.I.Y. (Do It Yourself), Dogma 95, cinema digital e o movimento independente americano, tendo John Cassavetes e, posteriormente, Richard Linklater como grandes influências, o Mumblecore chamou a atenção para uma discussão maior: o barateamento da produção cinematográfica com a chegada da tecnologia digital e como isso se reflete tanto no mercado cinematográfico como no modo de se fazer cinema.

Quilombocine recomenda:

REMÉDIO PARA A MELANCOLIA (Medicine for Melancholy, EUA, 2008, 88 min, digital). Dir.: Barry Jenkins. Com Wyatt Cenac, Tracey Heggins, Elizabeth Acker e outros. A cidade de São Francisco, EUA, é o cenário para esta história de amor entre dois jovens afro-americanos que convivem com o desafio de serem parte de uma minoria em uma cidade hostil. Um dos raros filmes Mumblecore com personagens não-brancos.


CLIMA FRIO (Cold Weather, EUA, 2010, 97 min, digital). Dir.: Aaron Katz. Com Cris Lankenau, Trieste Kelly Dunn, Raúl Castillo e outros. Doug acabou de voltar para sua cidade natal, Portland, em Oregon (EUA), para morar com a irmã. Quando sua ex-namorada aparece inesperadamente na cidade, sumindo logo em seguida, Doug, Gail e Carlos, o novo amigo dos dois, assumem papéis de detetives, ou, como eles mesmo afirmam, “Sherlock Holmes” da vida real. Para além do toque de mistério, o filme é uma bela e espontânea história de amizade e camaradagem familiar.


Pesquisa e postagem: Oubí Inaê Kibuko para Quilombocine.